sábado, 15 de agosto de 2009

Quanto tempo faz?



Faz tempo que não tenho tempo para ter tempo. Estranho? Nem tanto; Exatamente por isso, tenho ficado isolada mais em pensamentos, não mais em palavras.

Tenho me questionado sobre o que faz as pessoas pensarem que tenho o dom da palavra, ou da escrita? Porque, ultimamente, me reservo ao delicioso dom da observação...
Observo gestos, sorrisos.
Observo diferenças, semelhanças. A maneira como as pessoas se portam no trem pode dar um verdadeiro livro, ou até quem sabe um filme, como diria meu querido cineasta Victor Hugo. Cada dia faço questão de entrar em vagões diferentes; consequentemente fico surpresa com as coisas que escuto. Hoje, por exemplo, ouvi pregações de fanáticos religiosos, e vi quatro pessoas aparentemente sonadas aceitarem Jesus em suas vidas. Até eu vibrei por elas, e a assessoria de imprensa da PUC já deve saber todas as músicas da “igreja” de cor e salteado.
Na volta, ouvi a conversa de duas empregadas, aparentemente reclamando de suas patroas fúteis. A diferença é que as patroas eram Cláudia Raia e Paola Oliveira. Já sei, por exemplo, que a “dona Cláudia pede até para pegar o telefone que ta do lado dela...” e que “dona Paola é novinha, mas é abusaaaaaada...”. Dessa experiência, aprendi que se um dia ficar famosa, não vou pedir favores desnecessários a minha empregada, porque provavelmente ela falará mal de mim pelos trens da vida.

Fatos engraçados a parte, o trem é um verdadeiro orfanato. Não só pelas crianças pedintes, mas principalmente pela carência das pessoas. Elas te olham querendo um sorriso, não só uma moeda. Admiram sua roupa, seu cabelo, suas unhas. Olham nos seus olhos, e esperam que você os veja como verdadeiros, e não só como uma farça.
Você enxerga o que quer enxergar.
Você pode ver uma pessoa com olhos vermelhos de apenas 3 horas de sono por dia; Mas também pode ver olhos vermelhos de choro por não ter o que comer.
Os meus olhos se enchem d’água ao ver os olhos de meninos que perdem o próprio olhar no ar. Geralmente, esses mesmos meninos procuram perfeição nos malabares, e pode acreditar: são perfeitos.
Sua visão é trêmula, procurando o movimento adequado para suas peraltices... E quanto você pensa que não sai mais nenhum sorriso de tamanho sofrimento, ele vem largo, espaçoso, só numa troca de olhares como se dissesse “gostou mesmo, tio?”. Mesmo com tamanho ar denso e aquela infância perdida, ele me dá uma verdadeira aula de como ser feliz, mesmo sem o bendito do tempo que, afinal de contas, para ele não tem a menor importância!

(...)

Agora, observo propagandas e outdoors me dizendo o que fazer no dia. Hoje, dia 14 de agosto, é dia de mexer os dedos dos pés, andar na grama e respirar fundo.
Ah... Eu também posso me apaixonar de novo. Pela vida, pelas folhas do outono, pelo papel e caneta em mãos.
E que felicidade por sentir novamente a alegria de ter tempo. Ainda mais para colocar alguma coisa em prática, alguma dança em prosa, ou alguma poesia em métrica. De ver meus livros e textos voltarem para mim.

Um comentário:

Arlindo_Gilcqueline disse...

Não importa quanto tempo faz,não é mesmo? Oque importa é que ainda temos tempo para ser feliz sempre!Parabéns pela sensibilidade de seus textos,amo todos eles.

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